A Melhor Idade
Folha de Londrina, Espaço Aberto - 09 de Fevereiro de 2014

Convencionou-se chamar de A Melhor Idade o período de vida acima dos 60 anos. A grande maioria das pessoas, ao que parece, aceita essa denominação, um eufemismo para o termo velhice e 3ª Idade. Entretanto, será que, de fato, esse eufemismo tem fundamento? Eu, que estou bem próxima de entrar para essa turma, me sinto incomodada com tal denominação, pois, embora haja muitos ganhos nessa nova fase da vida, as perdas naturais, aos poucos, vão se fazendo presentes, o que nos leva a sentir saudades do tempo em que tínhamos um corpo ágil e forte.      

            É óbvio que, para alguns idosos, sobretudo para os que enfrentaram muitas dificuldades e sofrimentos ao longo da vida e não tiveram oportunidades de lazer nem tempo para si mesmos, a 3ª Idade pode vir a ser  a Melhor Idade! Mas daí a generalizarmos e afirmar que essa é a melhor fase é um engodo, além disso,  disseminar essa ideia é ludibriar jovens, adultos e  idosos. É saudável para os adolescentes aprender que o desenvolvimento humano é marcado por etapas que possuem características próprias e que uma pessoa, ao chegar à 3ª Idade, depara-se com limitações físicas, embora possa viver com qualidade de vida e usufruir de vários prazeres, inclusive o sexual. Assim, considero válido educar para a realidade, de forma que os adolescentes possam chegar à fase adulta com postura de  adultos,  sem  desejarem ser eternos adolescentes, parecendo sempre jovens e belos, e à 3ª Idade, usufruindo da alegria de viver e aceitando as limitações próprias do envelhecimento e da finidade da vida. Defendo que é relativo especificar uma determinada fase como sendo A Melhor, seja ela qual for, pois concordo com o filósofo Sócrates quando afirma que "A alegria da alma constitui os belos dias da vida, seja qual for a época".  

            O desenvolvimento humano é algo maravilhoso de se observar, de se acompanhar, pois, do início da vida à fase adulta, incontáveis transformações ocorrem. Muitas vezes, me pego observando algum rapaz ou moça, que conheci desde pequeno/a, e vou fazendo "o filme" retroceder em minha imaginação, visualizando, mentalmente, a carinha e o jeitinho dele (ou dela), de pequenino/a  e na pré-adolescência. Fico maravilhada!   É bonito ver, sobretudo, se ele ou ela  está bem e integrado/a na sociedade.   Faço o mesmo exercício diante de uma pessoa idosa que conheci em sua fase adulta e, se ela se mostra sábia, experiente e de agradável contato, meu encantamento, igualmente, se manifesta.

            Na recém concluída novela, Amor à Vida, o autor encaminhou uma das cenas de maneira muito feliz: quando o advogado Rafael vai pedir à médica Paloma para que o ajude a esclarecer, à mãe da personagem autista, que o relacionamento amoroso dele com esta jovem é saudável e bom para ela, a médica lhe diz que procure a avó da garota, porque ela é a pessoa mais indicada para ajudá-lo. No diálogo protagonizado por esta senhora ficou ilustrada a beleza do estar na 3ª Idade e continuar sendo capaz de contribuir para relações humanas mais positivas. Quem pôde acompanhar a novela viu a mesma idosa vivenciar um  relacionamento amoroso na 3ª Idade. É a necessária  quebra de tabus.

            Procurar crescer como pessoa e cuidar do seu desenvolvimento intelectual, do seu corpo e de sua saúde, são fatores que ajudam o individuo a ter uma velhice feliz  e marcada por realização pessoal. Penso que não devemos nos enganar quanto à realidade do desenvolvimento humano, nem temê-lo. Caminhamos sim para o envelhecimento, mas ainda podemos fazer a diferença no meio em que vivemos, já que as possibilidades de crescimento estão sempre postas para todos, pois, como diz Guimarães Rosa: "Mire, veja! O mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, elas ainda não foram terminadas, mas que elas estão sempre mudando". 


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